Mestres da cultura popular evocam tradição e encanto a novos públicos
Mestres da cultura popular, como a rainha Francisca Dias, de 65 anos, e Tião Carvalho, de 71, evocam tradição e encanto a novos públicos em Brasília, com apresentações gratuitas e oficinas até sábado (29).
Mestres da cultura popular evocam tradição e encanto a novos públicos no Encontro de Mestres em Brasília, que começou na quinta-feira (27) e se encerra neste sábado (29), com entrada gratuita. A rainha e mestra Francisca Dias, de 65 anos, conhecida como Rainha Ginga Preta, sobe ao palco do Conic com mais 19 músicos do quilombo do Morro Alto, no litoral norte do Rio Grande do Sul. O evento reúne artistas de 11 estados e do Distrito Federal, segundo o curador Anderson Formiga.
O Encontro de Mestres da cultura popular em Brasília apresenta manifestações de tradição de matriz africana bantu, como o maçambique, uma congada gaúcha mantida desde o século 19. "São as mesmas roupas e músicas desde sempre", diz a rainha, que assumiu a coroa há uma década, após a morte da mãe, Severina Dias, última rainha, em 7 de outubro de 2016, dia de Nossa Senhora do Rosário. A comunidade produz tudo, incluindo instrumentos e a maçacaia, um cestinho de taquara com sementes de caetés que garante o ritmo.
A apresentação na capital emociona a rainha, que vê na arte uma forma de combater preconceitos, incluindo o racismo. "A gente prepara também as nossas crianças para se defenderem com palavras", afirma. Para o curador, o encontro busca garantir visibilidade à multiplicidade cultural e formar novos públicos. "O jovem precisa ser encantado", acredita Formiga, que montou um mosaico de cultura popular com raízes negras, europeias e indígenas.
O mestre maranhense Tião Carvalho, de 71 anos, também participa do evento. Professor na educação básica e fundador do grupo Cupuaçu, ele mistura samba, coco, bumba-meu-boi, forró e baião, com apresentações frequentes na Europa. Carvalho defende políticas públicas para a cultura tradicional: "É preciso que o Brasil valorize mais a cultura tradicional. O foco maior é a gente conscientizar e buscar políticas públicas que garantam espaço para nós".
Além das apresentações no palco, o evento contempla oficinas. A celebração do maçambique neste ano ocorrerá em 24 de setembro, em vez de 7 de outubro, por causa das eleições. O quilombo do Morro Alto conta hoje com 1.750 famílias. Para a rainha, honrar os ancestrais é o maior desejo. "Quando eles estão na congada, ninguém nem pensa em pegar o celular", diz, reforçando a aliança de resistência entre crianças e idosos que mantêm viva a tradição.