# Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

> O projeto Orquestra Criança Cidadã completou 20 anos de atuação na periferia do Recife. Um concerto no Teatro de Santa Isabel reuniu egressos como Isaías Tavares, Antonino Tertuliano e Herlane da Silva, que demonstraram como a música proporcionou oportunidades internacionais, incluindo apresentações na Áustria e nos Estados Unidos.

*Festa do Teatro · Análises e Críticas · 27 de julho de 2026 · Helô Sampaio*

Há 20 anos, o projeto Orquestra Criança Cidadã transforma vidas na periferia do Recife. Em concerto no Teatro de Santa Isabel, egressos como Isaías Tavares, Antonino Tertuliano e Herlane da Silva mostraram como a música abriu portas para o mundo, da Áustria aos EUA.

## Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

O concerto no Teatro de Santa Isabel, no Recife, celebrou os 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã, criado em 25 de julho de 2006. Egressos como o violista Isaías Tavares, o contrabaixista Antonino Tertuliano e a violoncelista Herlane da Silva mostraram como a música transformou suas vidas, levando-os da periferia para palcos na Europa e nos EUA.

## A história de Isaías Tavares: do Coque à Áustria

Isaías Tavares, hoje violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde trabalha há 15 anos, entrou no projeto social em 2006. Morava no bairro do Coque, que tinha o menor índice de desenvolvimento humano do Recife. A casa da família, feita de tábuas de madeira, foi destruída por uma tempestade em 2009. O projeto conseguiu doações para erguer uma residência de alvenaria em outra rua do bairro e pagou o aluguel de uma casa até o novo lar ficar pronto.

A mãe, Ivone do Santos, de 57 anos, era empregada doméstica e mãe solo. Aos 11 anos, já fazia faxina e cuidava de crianças, abandonando a escola. Ela sustentou o filho com o pouco dinheiro que ganhava. Quando Isaías não tinha a viola, simulava o instrumento com uma caixa de papelão e ensaiava o movimento do arco com um galho de goiabeira perto de casa.

"Foi minha mãe que me estimulou e nunca me deixou desistir", afirmou o músico.

### A formação no projeto

O projeto tinha sede em um quartel do Exército próximo ao Coque. Isaías passou a contar com três refeições diárias, algo impossível antes. A orquestra era regida pelo maestro potiguar Cussy de Almeida. À noite, Ivone ouvia o filho ensaiar até adormecer.

Aos 18 anos, Isaías passou em um processo seletivo e foi estudar em um conservatório superior em Salzburgo, na Áustria. Tocou na Orquestra Sinfônica de Wels e viajou pela Europa. Ao voltar ao Recife, fez concurso para a Orquestra Sinfônica de Goiânia e passou em primeiro lugar, junto com dois colegas.

## Antonino Tertuliano: da orquestra à Alemanha

O contrabaixista Antonino Tertuliano foi um dos aprovados. Hoje, é o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Entrou no projeto com 14 anos. A opção pelo contrabaixo surgiu pela ideia de que seria um "instrumento difícil". Aos 16 anos, já sabia que a música seria sua profissão. Em qualquer momento livre, caminhava 20 minutos até a orquestra e ficava o máximo de tempo possível na sala de estudos.

Antonino diz que os demais adolescentes da orquestra eram como irmãos, com os mesmos objetivos: dar um futuro melhor para si e para a família, e se afastar dos destinos de outros rapazes da comunidade, atraídos pelo crime. Os músicos reconhecem que o cenário local mudou com a implementação da orquestra.

Ele aprovou um projeto via Lei Rouanet para captar recursos e apresentar música clássica em escolas no Nordeste. O trio Palíntonos, formado por ele e mais dois europeus, quer fazer a turnê ainda este ano. "É uma expressão que significa flexibilidade e tensão, mas nunca rompimento", explica.

## Herlane da Silva: doutorado nos EUA

A violoncelista Herlane da Silva, de 31 anos, egressa da primeira turma, está no doutorado em Houston (EUA). Na pesquisa, estuda a importância dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos. Ela tocou no concerto para a mãe, a dona de casa Patrícia, e o pai, o pedreiro Herculano José. Os pais e os professores a estimularam a fazer música. "Quando eu cheguei na sala, meu coração começou a palpitar", disse.

## O projeto que forma cidadãos

O diretor e criador do Orquestra Criança Cidadã, o juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), afirma que o primeiro objetivo não é formar músicos, mas cidadãos. "Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa", afirmou.

Além do Coque, o projeto tem um núcleo na área rural de Igarassu, a cerca de 30 km da capital. Lá, 40 crianças e adolescentes, filhos de trabalhadores rurais, trocam a lida no campo por instrumentos musicais. "Eles veem no projeto uma oportunidade de crescer, de conhecer e expandir os horizontes", afirmou a professora Basemate Neves, que coordena as atividades no local.

Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Um deles é José Felipe da Silva, 20 anos, contrabaixista. Conheceu o projeto há 10 anos na escola pública. Antes, acompanhava os pais na plantação de milho, inhame, macaxeira e feijão. Da casa na roça até a escola de música, eram 30 minutos de caminhada por mata fechada até a estrada, onde pegava um ônibus.

## Perguntas Frequentes

### O que é o projeto Orquestra Criança Cidadã?

É um projeto social criado em 25 de julho de 2006 no Recife, que oferece formação musical e cidadã a crianças e adolescentes de comunidades carentes, como o Coque e Igarassu.

### Quem criou o projeto?

O projeto foi criado pelo juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

### Quantos jovens já passaram pelo projeto?

Cerca de 1.500 jovens já passaram pelo projeto, segundo a fonte.

### Onde o projeto tem sede?

A sede principal fica em um quartel do Exército próximo ao bairro do Coque, no Recife. Há também um núcleo na área rural de Igarassu.

### Quais são alguns egressos de destaque?

Isaías Tavares (violista da Orquestra Sinfônica de Goiânia), Antonino Tertuliano (contrabaixista da Filarmônica de Duisburg, na Alemanha) e Herlane da Silva (violoncelista em doutorado nos EUA).

### Como o projeto impacta a comunidade?

Os músicos reconhecem que o cenário local se alterou com a implementação da orquestra, oferecendo uma alternativa ao crime e abrindo oportunidades de estudo e carreira no Brasil e no exterior.

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Fonte (canonical): https://festadoteatro.com.br/analises-e-criticas/periferia-mundo-concerto-marca-20-anos-projeto-recife/
